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Literatura Portuguesa e Brasileira

Introdução à teoria literária

1- Texto literário e não-literário
Chamamos de Texto Literário àquele que apresenta preocupação com a Arte da Literatura, em verso ou em prosa,
constituído da recriação da realidade pela visão do autor, através da palavra estilizada. Ou seja, o texto literário visa o belo, a
fruição e é comprometido com a criatividade. São exemplos em verso, os poemas, e em prosa, o conto, a novela e o romance.
Já o texto não-literário é aquele que se preocupa apenas com a comunicação funcional, servindo para diversos fins. É o
caso do texto de jornal, do livro didático, da bula dos remédios.
2- Prosa e poema
Na Prosa, as linhas ocupam toda a extensão horizontal da página, excetuando as margens convencionais. O texto dividese
em blocos chamados parágrafos.
Na Poesia, as linhas não ocupam toda a extensão horizontal da página. O texto divide-se em blocos chamados estrofes.
Cada linha do poema é denominada verso.
3- Abordagem tripartida aos gêneros literários: Lírico, Épico e Dramático
Pela necessidade de dividir a literatura em grandes blocos, surgiram os chamados gêneros literários. Tradicionalmente esses
gêneros se dividem em lírico, épico e dramático, sendo que ao gênero dramático pertenciam todas as peças teatrais (autos,
farsas, tragédias, comédias etc), ao gênero épico pertenciam as narrativas em verso que tratavam de assuntos grandiosos,
normalmente de forma impessoal e objetiva, e ao gênero lírico pertenciam todos os poemas que expressavam os sentimentos
(que não sejam peças teatrais, nem narrativas heróicas), normalmente de forma pessoal e subjetiva.
Modernamente outras classificações são possíveis, sobretudo por causa da evolução literária da prosa e a valorização da
sátira. Veja abaixo uma nova classificação. Assim, pode-se falar de poesia satírica e pode-se reconhecer que a prosa é dividida
em conto, novela e romance (alguns acrescentam a crônica).
4- As categorias básicas da narrativa
A prosa é um gênero muito amplo, que contém subgêneros especificadores. Dentre estes, os mais importantes são o
romance, o conto e a novela.
O romance é o tipo de história em que o narrador prolonga o conflito principal com conflitos menores, vindos dos painéis
de época, de divagações filosóficas, psicológicas, historiográficas, da observação das pessoas, seus costumes, de pequenos
dramas paralelos ao drama principal, etc. Daí sua estrutura mais complexa e normalmente, mais extensa.
O conto é um tipo de história mais curta que o romance, construído geralmente de um único conflito, com poucas
personagens e apresentando-se sobre os mais diversos temas.
A novela também é um tipo de história curta, pode apresentar um ou mais conflitos (normalmente de tamanho intermediário
entre o conto e o romance), com a particularidade de que a novela tem um andamento mais episódico ou mais aventuresco,
dando-nos a impressão de capítulos separados. Assim, quando um conflito se encerra, surge o outro, até o desfecho final.
Não se esqueça que as novelas surgiram primeiramente escritas, com grande sucesso já no século XIX, e somente muito
depois é que se tornaram um fenômeno de audiência na televisão brasileira.
Os elementos fundamentais da narrativa são:O Enredo: a trama desenvolvida. A história em si.
O foco narrativo: quem conta a história? O narrador, que
pode ser em 1ª Pessoa, quando personagem ou em 3ª.
Personagens: são os seres que dão vida à narrativa.
Geralmente pessoas, mas podem ser animais ou objetos
como nas fábulas.
Espaço (ambiente): trata-se do local em que se desenvolve
o enredo.
Tempo: é a passagem dos minutos, horas, dias, meses,
etc. Pode ser de forma cronológica ou psicológica.
Linguagem: cada autor escreve de uma maneira particular.
Deve-se observar se a linguagem é culta ou coloquial,
com muita ou pouca figuração.
5- O conceito de estilo literário
O estilo literário pode ser analisado como individual ou
de época. Estilo individual é a maneira própria de cada autor
se expressar.
Estilo de época é o conjunto de traços comuns que caracterizam
as manifestações literárias de uma época.


Origens da literatura portuguesa

1- Período da literatura portuguesa
A literatura portuguesa, que já abrange oito séculos de produção, pode ser dividida em três longos espaços de tempo,
acompanhando as grandes transformações vividas pela Europa: Era Medieval, Era Clássica e Era Romântica ou Moderna.
Essas três grandes eras apresentam-se subdivididas em fases menores, chamadas de escolas literárias ou estilos de época.
Era medieval
Esse período se inicia com o texto mais antigo da literatura
portuguesa, segundo a tese de Carolina Michaëlis: a
“Canção da Ribeirinha” (também conhecida como “Canção
de Guarvaia”), de Paio Soares de Taveirós.
A era medieval divide-se em dois períodos
• Trovadorismo: Compreendido entre os anos de 1189, data
provável da “Canção da Ribeirinha”, e 1434, quando Fernão
Lopes foi nomeado para o cargo de cronista -mor da
Torre do Tombo.
• Humanismo: Estende-se de 1434 até o ano de 1527, quando
Sá de Miranda retornou da Itália, introduzindo em Portugal
característica da estética renascentista. O Humanismo
foi um período tipicamente de transição da cultura
medieval para a cultura clássica.
Era clássica
Em Portugal, a Era Clássica compreende os séculos
XVI, XVII e XVIII, apresentando como característica genérica
o predomínio dos valores clássicos. Divide-se em
três períodos:
• Quinhentismo ou Classicismo: Estende-se de 1527 a 1580,
ano em que Portugal passou para o domínio espanhol (coincidentemente,
é também o ano da morte de Camões, o
maior poeta renascentista português).
• Seiscentismo ou Barroco: De 1580 a 1756, ano da fundação
da Arcádia Lusitana.
• Setecencismo ou Arcadismo ou Neoclassicismo: De 1756
a 1825, ano inicial do Romantismo.
Era romântica ou moderna
Estende-se de 1825 até nossos dias, dividindo-se em
quatro períodos:
• Romantismo: Inicia-se em 1825, com o poema “Camões”,
de Almeida Garrett, e estende-se até 1865, ano da Questão
Coimbrã.
• Realismo: Compreende o período que vai de 1865 a 1890,
ano de publicação do livro Oaristos, de Eugênio de Castro.
• Simbolismo: Vai da publicação de Oaristos, em 1890, até
1915, ano em que foi lançada a revista “Orpheu”, marco
inicial do Modernismo.
• Modernismo: De 1915 aos nossos dias. Há quem reconheça,
a partir de 1945, um novo período, chamado Neo-Realismo.
Eras e idades
Observe que as eras literárias portuguesas praticamente
coincidem com os grandes períodos da História chamados
idades:
Na verdade, essa quase “coincidência” não é casual.
Como você terá oportunidade de perceber ao longo de
seus estudos literários, a produção cultural de um povo
está estreitamente relacionada ao momento histórico por
ele vivido.
No caso da literatura francesa, as datas que registram o
início e o término das eras literárias se aproximam ainda mais
das datas que marcam os períodos da História.
Observe abaixo o quadro comparativo entre os estilos
de época em Portugal e no Brasil.
A arte medieval: espiritualidade e religiosidade
A forte influência da Igreja também se estendeu às manifestações
artísticas na época medieval. As artes passaram a
ser consideradas como um meio de educação religiosa, cuja
maior preocupação era doutrinar o olhar e as referências de
uma massa analfabeta e ignorante. Pintores, escultores, músicos
e arquitetos produziram obras que iam ao encontro da
filosofia cristã: tudo estava impregnado de religiosidade e
voltado para glorificar a Deus e aos santos católicos, predominando
assim temas essencialmente bíblicos.
Artes plásticas
Na Idade Média, entre 1150 e 1500, predominou o chamado
estilo gótico, que tem como uma das características a religiosidade.
A pintura e a escultura retratavam o céu e os santos,
e pouca relação estabeleciam com o que acontecia na Terra. As
figuras humanas aparecem alongadas e bastante ornamentadas.
Raramente, havia representação tridimensional.
Observe nos quadros a seguir como as imagens pretendem
levar aos fiéis uma mensagem centrada na contemplação
e devoção a Cristo e aos santos católicos. As cores vivas
e os ornamentos empregados nas figuras objetivavam
tornar a imagem mais visível na escuridão da Igreja.
Arquitetura
A arquitetura medieval expressa a crença de que Deus é
onipresente e onipotente. Os espaços das catedrais góticas
são imensos e altos, as pontas agulhadas das torres parecem
tocar o céu; as paredes internas e externas são ricamente
ornamentadas com pinturas, estátuas e inscrições com temas
bíblicos, tudo inspira espiritualidade e religiosidade, tudo
remete à idéia de que o homem é um ser insignificante diante
da grandiosidade divina.
Na época medieval, a maioria dos músicos trabalhava
para a Igreja e tinha como dever compor e executar músicaspara os rituais das missas. O órgão era o instrumento perfeito
para produzir sons que elevassem o espírito aos céus. O
canto gregoriano, composição sacra em que os fiéis cantavam
em uníssono, manifestava em vozes altas toda a crença
na grandiosidade divina.
Fora das catedrais, trovadores, jograis e menestréis desenvolviam
poemas para serem cantados, dando início a um
novo estilo à música e à literatura: o Trovadorismo.

Trovadorismo (1198-1418)

A produção artística vai estar impregnada, neste período,
do espírito teocêntrico. As artes decorativas predominam,
sempre deformando os elementos objetivos do mundo
ou procurando simbolizar o universo espiritual e sobrenatural
através do qual o homem interpreta sua realidade. O estilo
gótico, com suas formas alongadas, ogivais e pontiagudas,
parece expressar forte desejo humano de ascender a uma
nova e eterna vida. A literatura, geralmente escrita em latim,
não ultrapassa os limites religiosos em sua temática: a vida
dos santos, a liturgia dos rituais cristãos. Mas em torno dos
castelos feudais desenvolve-se também uma arte leiga que,
mesmo, às vezes, chegando ao profano, redimensiona a visão
de mundo medieval e aponta novos caminhos. É a arte
dos trovadores e suas cantigas, das novelas de cavalaria.
Lembre-se das principais características
históricas:
• Estrutura Feudal - Classes sociais distintas: Senhores e
Vassalos;
• Igreja: a instituição mais forte (teocentrismo medieval);
• Casamentos “Arranjados” – Mulher socialmente inferior;
• Arte itinerante (trovadores e atores andarilhos);
• Palácios Pródigos (festas, danças, música, teatro).
O cavaleiro medieval, de variadas virtudes,
tem sido um dos temas, mais caros
à Inglaterra e às Artes em geral. Na figura
em destaque, a representação deste mito.
Há ilustrações do manuscrito inglês, de
princípio do século XIV, sobre a lenda do Rei Arthur (baseado
no romance francês Lancelot du Lact). A figura acima nos apresenta
uma releitura em pleno século XIX, dos romances de cavalaria.
A obra do pintor inglês Burne-Jones (que retrata a história
de um rei em busca da mulher ideal, e que acaba encontrando-
a na figura de uma simples mendiga) reflete uma nítida influência
renascentista, tanto no emprego das cores, quanto na
atenção metódica dada aos detalhes; a luz centrada na figura da
mulher confere à pintura características quase místicas.
Em Portugal floresceram cantigas de tipos
diversos quanto à temática
• Cantigas de Amigo: Nasceram no território português e
constituem um vivo retrato da vida campestre e do cotidiano
das aldeias medievais na região. Embora compostas
por homens, procuram expressar o sentimento feminino
através de pequenos dramas e situações da vida amorosa
das donzelas, geralmente, as saudades do namorado que
foi combater contra os mouros, a vigilância materna, as
confissões às amigas. Há nessas cantigas uma forte presença
da natureza, sua linguagem é simples e sua estrutura
apropriada ao canto e à transmissão oral apresenta refrão
e versos encadeados e repetidos ou ligeiramente modificados
(paralelismo).
• Cantigas de Amor: Surgiram no sul da França, na região de
Provença. Expressam o sentimento amoroso do trovador que
se coloca a serviço da mulher amada. Aqui, o amor se torna
tema central do texto poético, deixando de ser pretexto para a
discussão de outros temas. Mas é um amor não realizado,
não correspondido, que fica sempre num plano idealizado. E
de outro modo não poderia ser, pois a mulher amada se encontra
socialmente afastada do poeta: é a senhora, esposa
do senhor feudal. São cantigas que espelham a vida na corte
através de forte abstração e linguagem refinada.
Trovadorismo (1189-1418)
Lembre-se das principais características históricas:
• Estrutura Feudal - Classes sociais distintas: Senhores e
Vassalos;
• Igreja: a instituição mais forte (teocentrismo medieval);
• Casamentos “Arranjados” - Mulher socialmente inferior;
• Arte itinerante (trovadores e atores andarilhos);
• Palácios Pródigos (festas, danças, música, teatro).
Produção literária:
• Cantigas dos Gêneros Lírico e Satírico;
• Cantigas Líricas: de Amor e de Amigo;
• Cantigas Satíricas: de Escárnio e de Maldizer;
• “Cantores”: Trovador, Segrel, Menestrel e Jogral;
• Técnica: Paralelismo, Refrão, Versos Curtos, Rimas;
• Cancioneiros;
• Origem: Cantiga de Amor - origem Provençal. Cantiga;
de Amigo - origem ibérica (Galiza).
Cantiga de amor
Autoria: Masculina;
Sentimento: Masculino;
Temática: Coita d’amor / Vassalagem amorosa;
Amor: “Impossível”/ Sublimado / Platônico;
Mulher: Superior / Idealizada;
Ambiente: Palaciano/ Nobre.
Cantiga de amigo
Autoria: Masculina;
Sentimento: Feminino;
Temática: O “Amigo” ausente/ abandono/ solidão;
Amor: Concretizado;
Mulher: Real / Carnal;
Ambiente: Campestre / Popular.
Acompanhamento musical
Como já sabemos, as cantigas implicavam estreita aliança
entre a poesia, a música, o canto e a dança. Para tanto,
faziam-se acompanhar de instrumentos de sopro, corda e
percussão (a flauta, a guitarra, o alaúde, o saltério, a viola, a
harpa, o arrabil, a giga, a bandurra, a doçaina, a exabeba, o
anafil, a trompa, a gaita, o tambor, o adufe, e o pandeiro). O
próprio trovador tangia o instrumento, especialmente quando
de corda, enquanto cantava, ou reservava-se para a interpretação
da cantiga, deixando a parte instrumental a um acompanhante,
jogral ou menestrel. À parte musical dava-se o
nome de son (= som).
Cancioneiros
Sendo transmitida oralmente, é natural que muito da poesia
trovadoresca acabasse desaparecendo, sobretudo antes
de 1198. Com o tempo, a fim de avivar a memória incapaz
de reter diferentes composições, as letras passaram a ser
transcritas em pequenos cadernos de apontamentos. Mais
adiante, com o objetivo de resguardá-las definitivamente contra
qualquer extravio, foram postas em cancioneiro, isto é,
coletâneas de canções, sempre por ordem e graça de um mecenas,
notadamente o rei.
Dos vários cancioneiros que nos ficaram (na biblioteca de
D. Duarte havia o Livro de Trovas de D. Afonso ou de El-Rei e
o Livro de Trovas de D. Dinis, mas perderam-se), três merecem
especial relevo, por sua importância numérica e qualitativa.
1- Cancioneiro da Ajuda, composto no reinado de Afonso
III (fins do século XIII), o que exclui a contribuição
de D. Dinis (reinou entre 1268 e 1325 e foi chamado Rei
Trovador); contém 310 cantigas, quase todas de amor;
2- Cancioneiro da Biblioteca Nacional (também chamado
Colocci-Brancuti, homenagem a seus dois possuidores
italianos, dos quais Brancuti foi o último) é
uma cópia italiana do século XVI, possivelmente de
original do século anterior; contém 1647 cantigas, de
todos os tipos, e engloba trovadores dos reinados de
Afonso III e de D. Dinis;
3- Cancioneiro da Vaticana (o nome lhe vem de ter sido
descoberto na Biblioteca do Vaticano, em Roma), também
cópia italiana do século XVI, de original da centúria
anterior, inclui 1205 cantigas de escárnio e de maldizer,
de amor e de amigo.
Principais trovadores

Dos trovadores enfeixados nesses cancioneiros, o mais
antigo é João Soares de Paiva, nascido em 1141, mas o primeiro
de importância é Paio Soares de Taveirós, pela cantiga
de amor de 1198. Os principais trovadores foram: D. Dinis,
relevante pela extensão e qualidade de sua obra (escreveu
cerca de 140 cantigas líricas e satíricas), João Garcia de Guilhade
(deixou 54 composições líricas e satíricas, e foi dos
mais originais trovadores do século XIII), Martim Codax (trovador
da época de Afonso III, legou 7 cantigas de amigo, as
quais têm o mérito de constituir as únicas peças da lírica
trovadoresca cuja pauta musical se preservou até hoje), Afonso
Sanches (filho de D. Dinis), João Zorro, Aires Nunes, Aires
Corpancho, Nuno Fernandes Torneol, Bernardo Bonaval,
Paio Gomes Charinho e outros.
Trovador, Segrel, Jogral e Menestrel

Vejamos o sentido hierárquico atribuído às palavras trovador,
jogral, segrel e menestrel. Nem era muito precisa nem
imutável a diferença de grau entre eles, pois obedecia a oscilações
que dependiam do nível social e do talento artístico dos
trovadores e acompanhantes. Simplificando a questão, teríamos
que o trovador era o artista completo: compunha, cantava
e podia instrumentar as cantigas; as mais das vezes, era fidalgo
decaído. Jogral era uma designação menos precisa: podia
referir o saltimbanco, o truão, o ator mímico, o músico e até
mesmo aquele que compunha suas melodias; de extração inferior,
por seus méritos podia subir socialmente e ser tido como
trovador. Segrel designava um artista de controvertida condição:
colocado entre o jogral e o trovador, era o trovador profissional,
que ia de Corte a Corte interpretando cantigas próprias
ou não, a troco de soldo. Menestrel era o músico da Corte.
Valor da poesia trovadoresca

Incontestavelmente, grande parte
do vasto filão poético trovadoresco
encontra-se hoje ultrapassada, envelhecida
para o gosto do leitor moderno.
Todavia, há que usar de cautela a fim
de não supor que tudo quanto caracterizou a
lírica trovadoresca está fadado ao esquecimento:
seu primitivismo, a naturalidade dum lirismo que parece brotar
exclusivamente da sensibilidade, constitui nota viva e permanente;
e a agudeza analítica da cantiga de amor, com o seu
platonismo a encobrir calorosos apelos sensuais, ainda hoje
encontra eco entre os leitores dessa espécie de poesia. Os
“ingênuos” expedientes de linguagem (que servem de campo
fecundo para filólogos e gramáticos) colaboram na formação
de uma peculiar atmosfera de espontaneidade, quase totalmente
perdida com a Renascença. Por isso, o trovadorismo
exige do leitor de nossos dias um esforço de adaptação e um
conhecimento adequado das condições histórico-sociais em
que o mesmo se desenvolveu, sob pena de tornar-se impermeável
à beleza e à pureza natural que evolam dessa poesia. Aceito
nesse mundo poético de estranha sedução, descobrirá algo
mais: localizará a fonte primeira de onde promana muito daquilo
que constitui o patrimônio lírico em Língua Portuguesa.
Acabará compreendendo não ser para menos que certos poetas,
brasileiros e portugueses (como, por exemplo, Manuel
Bandeira e Afonso Duarte), lá se abeberaram: estes poetas,
para exprimir determinada e involuntária consangüinidade lírica,
subjacente em certos estados de alma comuns mas provocados
por motivos diversos, não tiveram senão que voltar à
origem, no encalço das formas adequadas de expressão. É
que, para algumas situações e sentimentos amorosos, os trovadores
encontraram palavras que ainda continuam a vibrar,
por sua flagrante limpidez e precisão, compondo imagens duma
beleza achada espontaneamente, quase sem dar por isso, antes
fruto do instinto, ou da intuição, que da artesania. Aí o seu
valor, ainda hoje.
MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa.
São Paulo: Cultrix, 1991.

Humanismo
Humanismo é o nome de um movimento intelectual,
uma doutrina filosófica e uma postura artística
que representam a transição entre a cultura européia
medieval e a do Renascimento. Teve início
na Itália, entre o fim do século XIII e o início do XIV,
no “outono da Idade Média”.
(Huizinga)
Os últimos séculos medievais foram marcados por crises
em todos os aspectos da vida social. Forma-se uma nova concepção
de mundo, um novo sentimento de ser humano. O Feudalismo
entra em decadência, esgotado por guerras constantes
que, aliadas às epidemias, fazem escassear a mão-de-obra rural
e a produção agrícola. O poder político se concentra mais
nas mãos dos reis, cuja autoridade, até então, se restringia
aos limites dos feudos reais. Fortalecidas, as monarquias afirmavam
sua independência em relação à Igreja e já não aceitavam
tanto sua intromissão nos assuntos de Estado. Por outro
lado, já desde o século XI a atividade mercantil se reativara
e, em torno dela, a cidade, a vida urbana e um novo grupo
social: artesãos e burgueses se ocupavam mais com os lucros
da vida terrena do que com a recompensa da vida eterna.
Nesta nova classe intermediária havia setores hierarquizados:
o patrão e o obreiro, os mestres e os aprendizes. Os
mais ricos almejam o prestígio da nobreza, os mais pobres
lutam por seus salários. Emerge como novo indicativo de
riqueza e poder, ao lado da terra, o dinheiro.
O conhecimento circulava mais agilmente pela cidade; a
invenção da Imprensa (Gutemberg - 1450) vem dinamizar definitivamente
este processo, tirando da Igreja a posse do
acervo cultural: as obras podiam ser reproduzidas em menor
tempo e maior quantidade, propiciando a formação de bibliotecas
fora dos mosteiros. Embora o padrão cultural e intelectual
ainda seja aquele sinalizado pela nobreza e pelos setores
eclesiásticos, é a classe média quem financia a cultura e a
vida urbana que fornece seus temas. Assim, a conformação
psicológica do burguês, mais centrada na observação e no
raciocínio, assume um papel importante na produção cultural.
O “conhecer pela observação” substitui gradativamente
o “conhecer pela fé”. Deus lentamente desloca-se do centro
da atenção do homem, que começa a prestar atenção em si
mesmo. É o movimento humanista que prepara uma definitiva
transformação na concepção do mundo: o antropocentrismo
que se concretizará nos séculos seguintes.
Esses novos valores, assumidos pelo homem a partir do
século XIV, deixarão sua marca na produção artística: na pintura,
a figura humana ganha forma, expressão e proporção; a
música torna-se polifônica, a arquitetura gótica agoniza.
A Literatura oscila entre a preservação de antigos valores
e a preparação de um novo homem. Na Literatura Portuguesa
o início desse período é marcado pela nomeação de
Fernão Lopes como cronista da corte portuguesa e o final
com a obra teatral de Gil Vicente. Nestes dois autores percebe-
se uma concepção cristã da vida: o primeiro tentando dirigir
espiritualmente a aristocracia, o segundo, apoiando-se
em valores cristãos e medievais. Mas a obra de ambos é mais
ampla do que isto.
Teatro: Gil Vicente
Vida
Calcula-se que Gil Vicente tenha nascido em torno de
1465, talvez na Província da Beira. Nada sabemos de sua
origem social e formação; percebe-se, pelas obras, a cultura
humanística adquirida em boa educação.
A primeira notícia segura do autor data de 1502, ano em
que fez sua estréia como homem de teatro, escrevendo e
representando para a rainha o Auto da visitação, também
conhecido por Monólogo do vaqueiro. A partir de então e ao
longo de mais de três décadas, desenvolveu sua carreira de
dramaturgo e encenador na corte dos reis D. Manuel e D.
João III. Nesse período, produziu obra volumosa, composta
de mais de quarenta peças de teatro, além de poemas líricos,
que figuram entre os notáveis do Cancioneiro Geral de
Garcia de Resende.
A coragem que Gil Vicente demonstra em seu teatro crítico,
fustigando todos os setores da sociedade de seu tempo,
pode ser também apreciada neste episódio de sua vida: Em
1531, um terremoto atingiu Portugal violentamente, e os padres
atribuíram a tragédia à ira de Deus, espalhando pânico
entre o povo e fomentando as perseguições religiosas. Gil
Vicente pronunciou um vigoroso discurso na cidade de Santarém,
condenando o alarmismo irresponsável dos padres,
além de escrever uma carta ao rei, expressando repúdio à
intolerância religiosa que vitimava os judeus.
O prestígio de Gil Vicente na Corte despertou a inveja de
muitos, que o caluniavam, acusando-o de plagiar o teatrólogo
castelhano Juan del Encina. Para calar as maledicências, Gil Vicente
pediu um mote (tema) sobre o qual desenvolveria uma
peça. Seus detratores escolheram o ditado popular “mais quero
asno que me leve que cavalo que me derrube”. Assim nasceu a
Farsa de Inês Pereira, uma das obras-primas de Gil Vicente.
A última peça de Gil Vicente foi a Floresta de enganos,
de 1536, ano do estabelecimento da Inquisição em Portugal.
Após essa data não se tem mais notícia da vida do autor.
Obra
Em vida, Gil Vicente teve publicado alguns poemas líricos
no Cancioneiro geral de Garcia de Resende (1516) e
várias peças de teatro em edições de cordel.
Luís Vicente, filho do grande dramaturgo, reuniu e publicou
em livro 44 peças do pai, com o título geral de Copilaçam
de todalas obras de Gil Vicente (1562). Pesquisas contemporâneas
indicam que Gil Vicente escreveu mais do que as peças
reunidas na Copilaçam.
A obra vicentina compõe-se de comédias, farsas (pequenas
comédias) e autos (peças teatrais que objetivavam
moralizar, divertir e difundir a fé cristã). Têm-se, ao todo, 44
peças, das quais 17 escritas em português, 11 em castelhano
e 16 bilíngües.
Sua produção literária pode ser arrumada em três fases
fundamentais:
1ª) De 1502 a 1524, em que predomina a influência de Juan
del Encina, sobretudo nos primeiros anos, atenuandose
depois de 1510.2ª) De 1515 a 1527, iniciando com Quem tem farelos? e terminando
com o Auto de Fadas: corresponde ao ápice
da carreira dramática de Gil Vicente, com a encenação de
suas melhores peças, dentre as quais a Trilogia das
Barcas (1517-1518), o Auto da Alma (1518), a Farsa de
Inês Pereira (1523) e o Juiz da Beira (1525).
3ª) De 1528, com o Auto da Feira, até 1536, com a Floresta
de Enganos, fase em que Gil Vicente intelectualiza seu
teatro sob influência do classicismo renascentista.


Origem do teatro vicentino
O teatro medieval apresenta uma certa uniformidade na
Europa católica romana. A influência que a Igreja teocêntrica
exerceu atingiu o teatro, sendo responsável pela constância
de formas dramáticas, que se reproduziam em toda parte. Isso
quer dizer que o teatro medieval foi, basicamente, teatro litúrgico,
ou seja, estava articulado com os ritos e o culto da
religião católica. Coube à ideologia teocêntrica um papel decisivo
na constituição das formas dramáticas medievais, das
quais as mais importantes são:
a) Mistérios: encenações de passagens bíblicas do Antigo
Testamento, consideradas prefigurações do advento
de Cristo; encenações da Natividade (nascimento de
Jesus); representações da vida e paixão de Jesus Cristo,
segundo o Novo Testamento. Os dois primeiros tipos
encenavam-se por ocasião do Natal, o último era
representado na Semana Santa.
b) Milagres: dramatizações da vida dos santos ou de intervenções
miraculosas da Virgem Maria.
c) Soties: representações satíricas, de origem popular. Tipo
de comédia rudimentar de conteúdo crítico, em que um
parvo (tolo - sot, em francês) era protagonista.
d) Moralidades: peças em que as personagens eram alegorias
(personificações de idéias, instituições etc.), que, através do
jogo dramático, serviam de exemplo para a edificação moral
dos espectadores.
e) Farsas: encenações satíricas de gosto popular.
f) Autos pastoris ou éclogas: diálogos de pastores simples;
evocação da vida pura, cujo modelo remonta ao
cristianismo primitivo.
g) Momos: alegorias visuais (sem texto) luxuosas, com centenas
de figurantes.
Portugal conheceu essas formas de teatro europeu medieval
através de Castela, de onde se irradiava o teocentrismo
da Igreja católica para toda a Península Ibérica. Essa tradição,
vinda de fora, constituiu a base para o surgimento do
primeiro autor português: Gil Vicente. Não se tem notícia de
autores portugueses de teatro antes dele, sendo por isso Gil
Vicente chamado “pai do teatro português”.
Características do teatro de Gil Vicente

O teatro de Gil Vicente caracteriza-se, antes de tudo, por
ser primitivo, rudimentar e popular, embora tenha surgido e
se tenha desenvolvido no ambiente da Corte, para servir de
entretenimento nos animados serões oferecidos pelo Rei. Graças
ao amparo deste, o comediógrafo não precisou comercializar
seu talento para o ver frutificar. Mais importante do que
isso é o fato de ele fugir das concessões que favorecem mas
empequenecem, e ter-se guiado sobranceiramente por suas
convicções, numa independência de caráter apenas limitada
pelo bom senso e pelas naturais coerções do meio palaciano.
Essas determinantes são fundamentais para compreender
o precoce despontar, historicamente falando, de um teatro
tão rico, denso e variado. Escrevendo para um público
exigente e que detinha nas mãos as rédeas do poder, nem por
isso Gil Vicente deixou de impor-se como teatrólogo e impor
seu gosto pessoal. E se por vezes parece haver obedecido às
injunções do ambiente em que vivia e em que levava o seu
teatro, jamais se rebaixou a ponto de se desmerecer, ainda
que, para defender sua autonomia moral, tivesse de camuflála
com o emprego de disfarces, truques, símbolos, alegorias e
mesmo o cômico mais desopilante. Graças a tais condições de
trabalho, legou obra volumosa, fruto duma persistente ebulição
interior e diversa nos seus ingredientes e recursos cênicos.
Teatro baseado na espontaneidade e tendo em mira divertir
a Corte, organizava-se sob a lei do improviso, de que o
texto atual nos oferece pálida imagem: as representações progrediam
ao sabor da invenção do momento, quer por causa
dos autores, quer pelo próprio conteúdo das peças. É de
supor que Gil Vicente esboçava um roteiro básico, apenas
para ordenar a encenação numa seqüência verossímil. O resto
ficaria ao sabor do momento, e de todas as alterações
impostas pela lei do acaso. A pobreza do texto no que diz
respeito à “marcação” teatral é índice desse amor primitivo
ao improviso; aliás, o próprio cenário seria convencional ou
mesmo ausente, visto as representações se desenrolarem no
salão de festas do paço real: uma cortina, uma cadeira, quando
muito, e o resto era imaginado. A mímica desempenharia papel
importante nesse teatro de entretenimento e edificação.
Por outro lado, o grande mérito de Gil Vicente reside no fato
de ser, antes de tudo, um poeta, e poeta dramático. Seu talento
cênico vem-lhe a seguir, pois naquela fase da história do teatro
não se poderiam entender as coisas de modo diverso. Como
poeta, seu valor manifesta-se numa fluência e elasticidade expressivas
que abarcam todos os matizes, líricos, satíricos, mitológicos,
alegóricos, religiosos, sem perder sua específica fisionomia.
O verso brota-lhe simples e contínuo numa cadência
natural e espontânea, seja nas cantigas que intercala na ação
das peças, seja na própria fala das personagens.
Enquanto comediógrafo propriamente dito, Gil Vicente
se destaca como o mais importante autor de teatro em toda a
história da Literatura Portuguesa. Servindo de ponte de trânsito,
traço de união, entre a Idade Média e a Renascença,
fixou em suas peças o momento em que as duas formas de
cultura se defrontavam, uma, para terminar (ou melhor, para
diminuir seu influxo e domínio), a outra, para começar. Daí
seu duplo (quando não triplo ou quádruplo) caráter, como
apontamos ao tratar dos tipos de peças: é um teatro que tem,
na exata medida do tempo, olhos voltados para trás, contemplando
o mundo que morria (e a que Gil Vicente pertencia por
ideologia e formação), e para a frente, na intuição feliz do
novo rumo tomado pelo embate das idéias.
É um teatro popular nos temas, na linguagem
e nos atores. O teatro de Gil Vicente é extremamente
simples em relação à forma, utilização de cenários
e montagens. Não obedece às três unidades
do teatro clássico (ação, espaço e tempo). Coexistem,
lado a lado, os caracteres tipicamente medievais
(religiosidade, uso de alegorias, de redondilhas
e desobediência às três unidades do teatro
clássico) e os humanistas (presença de figuras
mitológicas, a condenação à perseguição aos judeus
e cristãos-novos e a crítica social).

Características formais
Ação
Quanto à ação dramática, o teatro de Gil Vicente pode ser
dividido em peças de enredo e peças de ação fragmentária
descontínua.
Espaço
Via de regra, as cenas de uma mesma peça têm locações
variadas. Por exemplo, no Auto da Lusitânia, a primeira cena se
passa na sala de uma casa de judeus. Lediça, moça formosa,
está a varrer; sua mãe, fora de cena, costura; seu pai não está em
casa. Entra um cortesão e lhe declara amor. Ao perceber a chegada
do pai da jovem, o namorado foge. Segue-se uma terna cena
de família, até que todos vão ao teatro, para assistir a uma peça
de Gil Vicente. Na cena seguinte, a família está na platéia do
teatro. Um licenciado (bacharel) sobe ao palco e expõe o assunto
da peça: a origem mítica (lendária) de Portugal. Terminada a
exposição, o licenciado se retira e tem início a encenação da
peça dentro da peça (metalinguagem), cuja ação se passa na
morada de Lisibéia e sua filha Lusitânia. Note-se que em poucas
cenas há várias mudanças de lugar: casa dos judeus, platéia do
teatro, palco, morada de Lusitânia. Essa variedade espacial é
comum ao teatro europeu da Idade Média e bastante diferente
da unidade de espaço do teatro clássico.
Tempo
As peças de Gil Vicente não têm limite de tempo. No teatro
clássico, a ação representada é circunscrita num período em
torno de um dia (unidade de tempo). A ação dramática vicentina
pode implicar o transcurso de anos, como no caso do Auto
da Índia. Nessa farsa, o marido de uma senhora parte para a
Índia em busca de fortuna. Na sua ausência, a mulher deixa-se
cortejar por vários namorados. Quando o marido retorna com
as riquezas acumuladas, a mulher, hipocritamente, finge recato,
dizendo que sentira saudade, havendo muito rezado pelo
sucesso da viagem. Note-se que uma viagem de caravela para
a Índia levava meses de ida e outros tantos de volta.
Obs.: Diz-se que o teatro de Gil Vicente não respeita a regra
das três unidades, inspirada em Aristóteles e observada
na dramaturgia clássica. No teatro vicentino, não há unidade
de ação (as peças têm mais de um núcleo dramático);
não há unidade de espaço (as representações ocupam
mais de um lugar); e não há unidade de tempo (as
histórias transcorrem num período superior a um dia).
Personagens
As personagens de Gil Vicente são típicas ou alegóricas.
Isso vale dizer que elas são generalizações, não constituindo
individualidades.
Personagens típicas são as que representam tipos sociais.
São estereótipos de profissionais, de clérigos, de fidalgos
e de populares. Da vasta galeria de caricaturas emergem nobres
pedantes, funcionários corruptos, alcoviteiras mais ou
menos inescrupulosas, comerciantes judeus espertalhões, frades
devassos, velhos ridículos pelo amor serôdio (tardio), escudeiros
trambiqueiros, “moçoilas casadoiras”, esposas infiéis,
maridos ingênuos, aldeões “caipiras”, gente simples, parvos
e outros mais, todos com suas formas típicas de falar e agir.
Personagens alegóricas são personificações de idéias
ou instituições. Por exemplo: no Auto da feira, a personagem
chamada Roma figura a Santa Sé; no Auto da alma, o Peregrino simboliza a alma que erra pelos caminhos da vida; no Auto
da Lusitânia, Todo Mundo e Ninguém representam as idéias
que seus próprios nomes sugerem; etc.
Observa-se que, em certa medida, as personagens típicas
são, também, alegóricas, pelo que têm de genérico e exemplar.
O conjunto das personagens vicentinas forma um amplo
painel cultural de época do cotidiano português, embora seu
caráter arquetípico ultrapasse os condicionamentos históricos,
para interessar platéias de todos os tempos.
Vale observar que a maior parte das personagens
não tem nome de batismo, sendo designadas pela profissão
ou pelo tipo humano que representam.
Língua
Muitas peças de Gil Vicente são escritas em castelhano.
Algumas são bilíngües; neste caso, há personagens expressando-
se em português, enquanto outras falam castelhano.
A presença da língua castelhana no teatro vicentino corresponde
a uma particularidade de época. As relações de Portugal
e Espanha eram intensas: os reis de Portugal geralmente
casavam com damas da família real espanhola, fazendo o idioma
castelhano corresponder na Corte lusitana; a cultura européia
chegava a Portugal, em grande medida, através de Espanha;
os dois países vizinhos eram grandes rivais na exploração
marítima e na expansão colonial. Isso tudo contribuía para
que em Portugal fosse comum o uso da língua castelhana. Ao
usá-la em seu teatro, Gil Vicente registrou uma prática lingüística
habitual no cotidiano português quinhentista.
Nas éclogas (autos pastoris), em que as personagens
são gente simples do campo, ou em outros gêneros dramáticos,
quando há uma personagem simplória, Gil Vicente usa o
dialeto saiaguês, estilizado literalmente. Com isso, ele consegue
criar o efeito cômico que deriva do uso de uma língua
“caipira”. Saiaguês é o falar típico de Saiago, região da Província
de Zamorra, na Espanha, fronteiriça às serras da Beira
lusitana. Os habitantes dessa região eram humildes pastores
e camponeses, famosos por sua rusticidade de trato e por
sua fala primitiva. O saiaguês caracteriza-se pela abundância
de regionalismos e arcaísmos.
Gil Vicente usou com brilho criativo a língua portuguesa
viva de seu tempo, em seus vários registros, do popular
ao culto. Como bom homem de teatro, soube explorar a oralidade:
a fluência da fala, o coloquialismo, a gíria, palavrões
etc. As personagens de categoria social inferior utilizam-se
freqüentemente do ditado popular. Modos de expressão de
tipos sociais (advogados, juízes, padres, escudeiros, fidalgos,
alcoviteiras etc.) são, também, registrados. Tudo isso
contribui para a grande comunidade de suas obras junto a
seu público. Mas, para o público de hoje, essas qualidades
representam problemas ao entendimento. Nesses quase cinco
séculos que nos separam daquele tempo, a língua portuguesa
mudou muito. A língua de Gil Vicente é o português
arcaico, anterior à sofisticação latinizante que os escritores
renascentistas – Camões, principalmente – lhe conferiram,
na segunda metade do século XVI. Por esses motivos, aconselha-
se que o leitor atual se valha de edições comentadas,
em que os problemas de vocabulário, de sintaxe e outros
sejam esclarecidos.Gil Vicente valoriza a palavra, a reprodução
fiel do modo de falar peculiar de cada região e
classe social, e a utilização do verso, recriando a
linguagem coloquial.
Linguagem
O teatro de Gil Vicente é poético. As personagens falam
em versos redondilhos, menores e maiores, agrupados em
estrofes rimadas.
O poeta esconde e combina palavras, que formam seqüências
de sentido dotadas de ritmos e melodias; o poeta
Gil Vicente inventou uma fala musical para o seu teatro, de
efeito encantador. A sonoridade das palavras sublinha o sentido
que elas têm e reforça o humor ou lirismo que expressam.
Isso, sem perder seu caráter de fala. Mas a fala muitas vezes
se transforma em música, propriamente. É comum nas peças
de Gil Vicente a presença de canções populares, sacras e
cortesãs de raiz medieval.
RODRIGUES, Medina et alli. Literatura
Portuguesa. São Paulo: Ática, 1994.

A redação e o vestibular

A redação e o vestibular

Fazer redações costuma ser algo que “tortura” os alunos. Primeiro, pelo fato de o
aluno gastar o tempo pensando para criar “historinhas” ou para falar de coisas pessoais, opiniões
sobre determinadas questões. Em segundo lugar, pelo fato de o aluno se expor, tendo
que mostrar ao professor os seus erros de ortografia, os seus pensamentos “alienados” ou
preconceituosos. Outro fator agravante é o aluno raramente entender a avaliação feita pelo
professor. Mas, mesmo com tudo isso, é preciso não se torturar.
Usar a criatividade, seja para criar uma história, é buscar o desenvolvimento de uma
das faculdades mais importantes ao indivíduo. Sem criatividade um empresário, médico, advogado,
professor têm bem menos oportunidade de ver suas atividades prosperar. O improviso,
o raciocínio rápido e coerente estão na base de um bom empreendedor. Criar histórias é
treinar a capacidade de fazer as situações acontecerem e ter a capacidade de controlá-las.
Quanto às opiniões sobre questões pertinentes ao mundo coletivo ou individual, é
preciso ter senso crítico para se relacionar socialmente sem ser manipulado intelectualmente
por pessoas persuasivas. Quem não tem opinião própria deve aprender a ter, e o professor,
seja ele de Redação, História, Literatura, é alguém que pode ajudar muito. Mudar de opinião
a respeito de um assunto é sinal de inteligência, de amadurecimento, afinal cada dia mais
precisamos ver o mundo a nossa volta como algo dinâmico, em constante transformação.
3
Já no aspecto da avaliação da redação, os critérios
que devem ser seguidos pelos professores são os mesmo
seguidos pelas bancas corretoras nos vestibulares e são basicamente
seis: adequação ao tema, adequação ao tipo de
texto, adequação à coletânea, adequação à modalidade escrita,
coerência e coesão. O aluno entendendo como seu
texto é julgado e percebendo que ele está em um concurso,
competindo com vários candidatos, tem mais chances de
melhorar os seus textos, pois deve fazer as correções item a
item. O grande erro de muitos alunos é ignorar os critérios
de avaliação e escrever “na marra”, pois, sem consistência,
às vezes tira uma boa nota, outras...
Se o Vestibular é um concurso, é fundamental que se
conheça a regra para atingir o aprimoramento necessário.
Mais do que isso, é importantíssimo não se sentir torturado
em um processo de aprendizagem que poderá conduzir a
uma das mais relevantes vitórias




Comunicação oral e escrita

Ler e escrever
Um aspecto a ser bem esclarecido a quem procura
melhorar seu desempenho em redação é a diferença existente
entre a comunicação oral e a escrita.
A língua escrita só surgiu depois da falada e constitui
uma tentativa de reproduzi-la. Entretanto, ela não é capaz de
representar adequadamente as inúmeras variações de sentido
decorrentes das variações de entonação ou as informações
suplementares que um simples gesto produz ao acompanhar
as palavras. E, não raro, a comunicação entre duas
pessoas pode realizar-se apenas por um olhar significativo
ou um meneio de cabeça, aspectos dificilmente reproduzidos
de modo adequado pela língua escrita.
Em vista dessas diferenças de recursos entre a língua
oral e a escrita, não devemos pensar em escrever como se
fala, pois trata-se de dois tipos de comunicação bem distintos.
Uma coisa é falar com uma pessoa que está em nossa
frente e que, com um simples gesto ou olhar, nos informa
que está entendendo tudo; outra bem diferente é escrever,
tentando pôr no papel o que seríamos capazes de falar.
Devemos, assim, tomar consciência de que a língua
escrita tem suas dificuldades próprias, exigindo treino constante,
concentração e o domínio de um vocabulário relativamente
extenso. Elaborar um texto claro e bem escrito é sempre
o resultado de várias
tentativas e do esforço
em torná-lo cada vez melhor
– seja trocando uma
palavra por outra, seja reformulando
períodos etc.
Portanto, não se esqueça:
um texto escrito sempre
pode ser melhorado e
não deve tomar como modelo
a língua oral.
O nível coloquial é
representado pelas formas
de linguagem usadas na
conversação diária, numa situação de informalidade. O
nível culto caracteriza-se por uma linguagem mais obediente
às normas gramaticais, estando, portanto, menos sujeito
a variações.
É importante ressaltar, porém, que essa distinção não
significa que um nível seja melhor que o outro. O que importa
é a adequação do nível empregado à situação em que
se produz o ato da fala. Se o objetivo de um indivíduo é falar
para ser bem compreendido pelo ouvinte, ele deve saber usar
convenientemente os níveis de linguagem. O conhecimento das
várias possibilidades de organização de mensagens favorece
uma pessoa, pois torna-a capaz de estabelecer contatos com
interlocutores de formação variada e em situações diversas.
Por outro lado, não devemos nos esquecer de que,
em nossa sociedade, o conhecimento da norma culta é um
dos meios de valorização social, além de permitir o acesso a
formas mais elaboradas de cultura, tanto no campo da arte
como no da ciência.
Embora a língua escrita esteja sujeita a menos variações
que a oral, essas observações também podem ser aplicadas
a ela. Toda vez que escrevemos um texto, devemos
ter em mente as características de nosso receptor e a natureza
do tema. Se fazemos uma dissertação sobre o problema
da poluição, por exemplo, devemos usar o nível culto
da linguagem; se, por outro lado, quisermos narrar a conversa
de pessoas do povo, devemos saber utilizar adequadamente
o nível coloquial. O grau de liberdade lingüística
de quem redige depende do assunto a tratar e da situação
em que ocorre a comunicação.
As principais modalidades de comunicação escritas
são: a narração, a descrição e a dissertação. Vale enfatizar
que essas três modalidades textuais geralmente não ocorrem
isoladas. Assim, num romance ou mesmo num conto,
embora predomine a narração, freqüentemente encontraremos
as modalidades descritiva e dissertativa.
Há diversos tipos de textos escritos com as mais diversas
finalidades. Pode ser uma carta, um bilhete, uma crônica,
um conto, uma piada, uma peça teatral, uma dissertação, um
convite, uma descrição, um relatório. Contudo, um bom texto,
em qualquer gênero, é aquele que consegue atingir os objetivos,
provocando as mais incríveis reações no leitor.
1- Texto narrativo
Narração é um texto onde se conta uma história real ou
fictícia, uma piada, um conto, uma novela, etc. Narração é o
ato de narrar alguma coisa. Seu cerne é o conflito marcado por
verbos no pretérito imperfeito e pretérito perfeito. Uso dos
discursos direto, indireto e indireto livre. Marcação cronológica
e/ou psicológica do tempo e pode apresentar descrição.
A narrativa pode ser real ou fictícia. A narrativa real é
o relato objetivo dos fatos. A linguagem reveste-se de um caráter
impessoal já que visa uma finalidade prática: a de informar
e a de instruir. Já a narrativa fictícia busca, no relato dos
acontecimentos, reproduzir a vida para ser sentida, entendida
e julgada em termos afetivos ou psicológicos. A linguagem se
reveste de um caráter pessoal, subjetivo. Cria uma nova realidade
com os dados da intuição do autor. Por isso, há sempre
uma seleção, uma escolha de elementos significativos.


Os elementos da narração

Personagem, fato central, enredo, discurso (direto,
indireto e indireto livre), foco narrativo, espaço, tempo e
apresentação das personagens.
1.1- Personagem:
É um ser criado no contexto da ficção que simula as
características de uma pessoa real. Ao narrador cabe a tarefa
de caracterizar a personagem e fazer com que o leitor do texto
aceite como uma representação verossímil de uma pessoa.
Todo elemento que manifestar vida em sua história é
considerado uma personagem, o que significa uma participação
ativa dentro da idéia apresentada.
Personagem quanto aos papéis:
As personagens quanto aos papéis podem ser: principais
e secundárias.
• Personagens principais
São aquelas que desempenham os papéis mais importantes
nas narrativas (protagonista e antagonista).
• Personagens secundárias ou coadjuvantes
São aquelas que desempenham papéis menos importantes,
auxiliam as principais.
• Personagem quanto à estrutura
Quanto à estrutura ou ao seu comportamento, a personagem
pode ser: linear ou complexa.
• Personagem linear
É também chamada de tipo, caracterizada pela simplificação
(mocinho ou bandido).
• Personagem complexa
São aquelas que apresentam a imprevisibilidade dos
seres humanos. As personagens complexas têm atitudes inesperadas,
ora agem de uma maneira, ora de outra, fazendo
com que o leitor jamais saiba como vão reagir frente a qualquer
situação.
1.2- Fato central:
Trata-se da ocorrência principal sobre a qual estamos
narrando. Se a narração é, por exemplo, uma festa, festa
é o fato central (é o que se narra).
O fato central representa a idéia em si. Só a partir
dele você poderá construir as personagens, diálogos e situações.
No entanto, o fato central não pode ser entendido como
“tema”, e sim como a adaptação da proposta temática a seus
próprios pensamentos.
1.3- Enredo:
É a história propriamente dita, a trama desenvolvida
em torno das personagens. O enredo é o esqueleto da narrativa,
aquilo que dá sustentação à história é o desenrolar dos
acontecimentos.
Há dois tipos de enredo que são: linear e não-linear.
• Enredo linear
É aquele que apresenta as ações de seus personagens
linearmente, isto é, primeiro o começo, em seguida o meio
e, por último, o fim.
Enredo não-linear
É aquele que não obedece à seqüência ou à ordem
comum: começo, meio e fim. Aqui o narrador pode começar
a história pelo fim ou pelo meio.
1.4- Discurso:
É um termo que se refere às possibilidades de que o
narrador dispõe para apresentar a fala das personagens.
É a utilização da linguagem usada pelo narrador quando
conta sua história, quando constrói seu enredo.
Dentro da narrativa, o discurso corresponde à fala da
personagem. Isso significa que toda a idéia expressa no texto
por um dos “participantes” da história representa um discurso,
tenha sido ele parte de um diálogo, um pensamento
ou uma declaração isolada.
Geralmente, por uma questão de lógica de significado,
vem acompanhado pelos chamados “verbos discendis”:
perguntar, exclamar, responder, dizer, falar...
Existem três tipos de discurso que são: discurso direto,
indireto e direto livre.
• Discurso direto
Ocorre quando a fala das personagens é apresentada
de modo integral, sem a interferência do narrador. Para registrá-
lo, o narrador pode fazer uso de um verbo dito elocucional
(falar, dizer, perguntar, retrucar...) seguido de dois
pontos (:) e de travessão (–) na linha seguinte.
É o recurso de reprodução exata da fala da personagem.
Você provavelmente faz uso dele oralmente quando,
ao contar um fato, dá ênfase a uma declaração repetindo,
vocábulo por vocábulo, sua mensagem.
• Discurso indireto
Ocorre quando o narrador reconstrói, por meio de
sua linguagem, o que as personagens teriam dito ou simplesmente
narra os fatos como se passam.
É a reprodução adaptada da fala da personagem, inserida
no texto pelo narrador como fato relatado sem representação
exata e objetiva do momento. Obedece às regras
padrões de qualquer trecho dentro de uma narração, sem que
necessite de uma pontuação específica. No entanto, necessita
de uma correspondência verbal do momento da fala para
o momento da narrativa que seja coerente (mas é impossível
definir uma “listinha” passível de memorização: essa é uma
regra que atende à lógica da própria língua).
No discurso indireto, a representação de emoções necessita
de algumas expressões extras, fora do discurso em si,
como advérbios ou locuções adverbiais: “em tom hesitante, lentamente,
desesperadamente, com a voz suave”, por exemplo.


Discurso indireto livre

Ocorre quando o narrador insere “falas-pensamentos”
das personagens no seu próprio discurso, dificultando a
identificação precisa de quem seria o responsável pelo que
está sendo dito. O discurso indireto livre é bem mais freqüente
em textos cujo foco narrativo é de 3ª pessoa, com
narrador onisciente.
É a mistura dos dois casos anteriores, em que as falas
do narrador e dos personagens se misturam, não explicitando
a quem pertencem.
Costuma ser um recurso literário, próprio de um estilo
dinâmico de escrita. No entanto, desaconselha-se esse
modo no vestibular, já que ele não deixa claro se o candidato
lançou mão dele por habilidade ou desconhecimento das
regras formais.
1.5- Foco Narrativo:
É a perspectiva a partir da qual uma história é contada.
O narrador é quem transmite a história. É a partir
dos detalhes apresentados por ele que a história ganha seus
contornos.
Há basicamente, três modos de o autor se colocar frente
ao seu texto.
• Narrador-personagem
O narrador conta uma história da qual participa, isto é,
ele está dentro do texto, como uma personagem, por isso o foco
narrativo é em 1ª pessoa; a linguagem deve adequar-se às características
da personagem que narra e o ângulo de visão é
limitado, podendo o ponto de vista partir da personagem principal
(protagonista) ou de uma personagem secundária.
• Narrador-observador
O narrador conta uma história como mero observador
de acontecimentos, dos quais não participa diretamente,
isto é, está fora do texto. Não sabe, a respeito do que acontece,
mas do que pode observar. Passa para o leitor os fatos
como teria enxergado. Narra em 3ª pessoa.
A linguagem deve adequar-se ao estilo do texto, podendo
ser muito mais livre, quanto às variações léxicas do
que na narrativa em primeira pessoa.
• Narrador-onisciente
O narrador conta a história como sabedor de tudo a
respeito dela. Este tipo de narrador é um “deus”, ele sabe
tudo o que se passa dentro da personagem, seus sonhos, suas
fantasias e suas intenções. Narra em terceira pessoa.
Por esse motivo é comum, em narrativas na terceira
pessoa, sermos informados sobre o estado de espírito das
personagens, seus sentimentos, pensamentos, etc.
1.6- Espaço:
É o conjunto de elementos da paisagem exterior (espaço
físico) ou interior (espaço psicológico), onde se situam
as ações das personagens. Ele é imprescindível, pois não funciona
apenas como pano de fundo, mas influência discretamente
no desenvolvimento do enredo, unindo-se ao tempo.
É o lugar (ou lugares) em que a história se passa.
Pode ser um cenário restrito (um quarto ou uma praia) ou
uma referência à cidade, região, país. A ambientação de um
fato se dá a partir da descrição física do lugar ou por meio de
citações dentro da própria história.
Aconselha-se, porém, descrever somente o que for
estritamente necessário, a fim de se evitar uma leitura pesada
e cansativa.
Descreve um ambiente é vital para a determinação
do “clima” em que se passa a trama, mas um detalhismo
exagerado geralmente desvia a atenção do leitor
do objetivo do texto.
1.7- Tempo:
O tempo de uma narrativa é caracterizado pela duração
da ação nela apresentada. É a passagem dos minutos,
das horas, dos dias, dos anos em uma narrativa. É indispensável
a sua determinação para a coerência da história.
O tempo pode ser:
• Tempo cronológico
É o que apresenta a seqüência natural e lógica, exemplificada
no princípio de que “amanhece, entardece, anoitece,
e assim por diante”. Os acontecimentos, então, são expostos
de acordo com a ordem óbvia de acontecimentos, e
assim relatados ao leitor.
• Tempo psicológico
É a ausência de marcas temporais definidas, geralmente
estabelecido a partir das “memórias” do narrador e
não obriga à ordem real e lógica dos acontecimentos. É o
meio pelo qual uma história pode começar a ser contada por
qualquer um de seus aspectos (início, desenvolvimento e final),
sem que isso interfira no seu entendimento.
Obs.: Atente para o fato de que há alternância dos tempos
verbais, o que define aquilo que é lembrança e aquilo
que é relatação no momento presente. No entanto,
esse recurso não deve ser utilizado aleatoriamente:
salvo o tempo cronológico como escolha de narração,
nunca misture “passado” e “presente”.
1.8- Apresentação das personagens:
A apresentação das personagens pode ser: direta ou
indireta.
• Apresentação direta
Consiste em dar os traços físicos e/ou psicológicos
das personagens.
• Apresentação indireta
Consiste em fazer com que o leitor vá descobrindo
como é a personagem, através das ações que ela comete (personagem
funcional) e/ou por meio dos discursos que usa.
Um texto se diz descritivo quando tem por base o
objeto, a coisa, a pessoa. Mostra detalhes que podem ser
físicos, morais, emocionais, espirituais. Nota-se que a intenção
é realmente descrever, daí a palavra descrição.
Descrever é caracterizar os objetos, apresentar características
percebidas através dos cinco sentidos.
A descrição é a forma mais primitiva, mais umbilical
de produzir um texto. Isto porque os instrumentos do ato de
descrever já estão em nós, constituem os elementos vitais de
nossa sensibilidade. Visão, tato, audição, paladar, olfato que
são os sentidos com que percebemos as coisas do mundo
que se traduzem em formas, cores, texturas, cheiros, sonoridades
a serem descobertos. Em suma, a descrição é um tipo
de texto em que, por meio de enumeração de detalhes e da
relação de informações dadas e características vai-se construindo
a imagem verbal daquilo que se pretende descrever.
A descrição é o “retrato verbal” de seres (pessoas, objetos),
paisagens ou situações; o texto trabalha com imagens,
permitindo uma visualização do que está sendo descrito.
Entretanto, a descrição exige algumas características
a mais. Descrever não significa apenas fazer um relato das
partes que compõem um todo; descrever uma sala informando
que ela tem quatro paredes, um teto, uma porta e duas
janelas, não acrescenta nada. São apontadas características
genéricas, comuns à maioria das salas; não há, portanto, o
essencial da descrição: o traço distintivo, individual, particular.
É necessário caracterizar o ser descrito, distinguindoo
de seres semelhantes, individualizando.
A alma das coisas
“Descrição miudamente fiel é, como em certos
quadros, uma espécie de natureza-morta. Portanto,
o que é preciso é captar a alma das coisas,
ressaltando aqueles aspectos que mais impressionam
os sentidos, destacando o seu ‘caráter’, as suas
peculiaridades. É preciso saber selecionar os detalhes,
saber reagrupá-los, analisá-los para se conseguir
uma imagem e não uma cópia do objeto. É
preciso mostrar as relações entre as suas partes
para melhor compreendê-lo no seu conjunto e melhor
senti-lo como impressão viva. Para conseguir
isso é preciso saber observar, é preciso ter imaginação
e dispor de recursos de expressão. ”
(GARCIA, Othon. Comunicação em prosa moderna)
As características lingüísticas mais marcantes da descrição
são:
• Tipos de descrição:
É normal distinguirmos dois tipos de descrição; dependendo
da postura assumida pelo observador: descrição
subjetiva e a descrição objetiva.
a) Descrição objetiva
É aquela em que o observador se limita aos valores exteriores,
aproximando-se o mais possível da realidade, sem emitir
juízo de valor (que são, obviamente, valores subjetivos). O
exemplo mais típico são as descrições técnicas ou científicas.
b) Descrição subjetiva
É aquela em que o observador emite juízo de valor,
salienta determinadas característica que o impressionam (portanto,
o que está sendo descrito é filtrado pelo observador,
interessa o que ele quer ver; interessa como ele vê). É a descrição
literária.
Dissertação é um texto que se caracteriza pela defesa
de uma idéia, de um ponto de vista. Ou então, pelo questionamento
acerca de um determinado assunto.
Dissertar é debater, discutir, questionar o nosso ponto
de vista, qualquer que seja. Desenvolver um raciocínio,
desenvolver argumentos que fundamentam nossa posição.
Polemizar, inclusive, com opiniões e argumentos contrários
aos nossos. Estabelecer relações de causa e conseqüência.
Dar exemplos, tirar conclusões. Apresentar um texto com
organizações lógicas de nossas idéias.
Dessa forma, uma dissertação depende de análise, de
capacidade de argumentação, de raciocínio lógico. Entre suas
características podemos citar: expor aos leitores uma determinada
posição ou mesmo levantar elementos para uma possível
análise ou reflexão. O autor do texto dissertativo trabalha
com argumentos, com fatos, com dados, os quais utiliza
para sedimentar e solidificar o desenvolvimento de sua tese
ou sua posição final.
Ao se iniciar uma dissertação, convém tornar claro e
explícito o tema que vai ser abordado, daí a importância da
introdução; por outro lado, também não se deve esquecer a
conclusão. Perceber que, dependendo do encaminhamento
dado ao texto, a conclusão pode até ser uma dúvida ou uma
interrogação; também pode ser um apanhado geral das idéias
expostas ou, ainda, a posição clara, categórica, do autor
sobre o tema desenvolvido.
O título, o tema, a tese e a argumentação são elementos
indispensáveis de uma mesma composição, porém, diferentes.
Tema: é o assunto já delimitado a ser abordado;
a idéia que será defendida por você e que aparece
logo no início do texto.
Título: é uma expressão, às vezes, apenas uma
palavra centralizada no início do trabalho; pode-se
dizer, também, ser ele uma vaga referência ao tema
ou assunto.
Tese: é a idéia defendida pelo autor do texto.
Argumentação: são os fundamentos utilizados
pelo autor para sustentar sua tese.
3.1- Características da dissertação:
O primeiro cuidado na produção do texto expositivo-
argumentativo é a delimitação do assunto de acordo com
seus fins.
Evidentemente que o desenvolvimento de um tema
dissertativo admite um sem-número de considerações e, em
conseqüência, diferentes possibilidades de encaminhamento.
É preciso, pois, selecionar de acordo com o tratamento
que se pretende dar ao assunto, os aspectos que mais nos
impressionam, os que mais conhecemos e dominamos e,
assim, sobre eles, montar um texto objetivo e coerente.
Em suma, diante do tema é preciso colocar objetivamente
uma questão (a tese), desenvolvê-la por meio de argumentação
coerente e convincente e, por último, concluíla
dentro da linha proposta.
3.2- Tipos de argumentos:
A dissertação, como vimos, expõe e esclarece um determinado
assunto, dentro de um raciocínio, emitindo opiniões.
O raciocínio se exprime por meio de argumentos, por
isso, de maneira genérica, indicaremos os principais tipos de
argumentos. Os principais raciocínios para argumentar são:
a) Raciocínio dedutivo:
É aquele que se desenvolve do geral para o particular.
O que é verdadeiro para todo um grupo é verdadeiro
para cada um de seus membros.
b) Raciocínio indutivo:
Opera do particular para o geral. Assim, uma vez
que um número importante de membros de um grupo apresenta
certa característica pertence a todos os membros do
grupo. Trata-se, portanto, de uma generalização: um, dois,
três... logo, todos.
c) Raciocínio causal:
Busca compreender a relação de causa e efeito num
fato ou processo.
d) Raciocínio analógico:
Consiste na passagem de um fato particular para outro
também particular que inferimos, em razão de alguma
semelhança. Em razão disso, o raciocínio por semelhança
fornece apenas probabilidade e não certeza, mas é usado com
freqüência em vários campos.
4.1- Introdução:
É a parte da dissertação em que se apresenta uma
idéia ou um ponto de vista que será defendido nos parágrafos
seguintes. É na introdução que se localiza o chamado
tópico frasal, período-chave em que se baseia todo o texto.
4.2- Desenvolvimento ou argumentação:
Considerado o corpo da dissertação, é o espaço em
que se desenvolve o ponto de vista ou a idéia apresentada na
introdução.
4.3- Conclusão:
É a parte da dissertação em que se dá um fecho coerente
com o desenvolvimento, com os argumentos apresentados.
A conclusão deve ser breve, ainda que se faça a recapitulação
das principais idéias.

Consutar a Bibliografia

ABAURRE, Maria Luiza, PONTARA, Marcela Nogueira,
FADEL, Tatiana. Português - volume único: língua e
literatura. 2ª ed., São Paulo: Moderna, 2003.
• BRASIL, Ministério da Educação e dos Desportos. Secretaria
do Ensino Fundamental. Parâmetros curriculares
nacionais. Língua Portuguesa. Brasília, 1995.
• CARNEIRO, Agostinho Dias. Texto em construção: interpretação
de textos. São Paulo: Moderna, 1992.
• CEREJA, William Roberto, MAGALHÃES, Thereza Cochar.
Gramática reflexiva: texto, semântica e interação.
São Paulo: Atual, 1999.
• FIORIN, José Luiz. SAVIOLI, Francisco. Para entender
o texto: leitura e redação. 3ª ed., São Paulo: Ática, 1991.
• FONSECA, Irene, FONSECA, Joaquim. Pragmática lingüística
ensino do português. Coimbra: Almedina, 1977.
• GARCIA, Othon M. Comunicação em prosa moderna.
Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1973.
• GERALDI, José Wanderley. Linguagem e ensino. Campinas:
Mercado de Letras, 1990.
• HOLANDA, Aurélio Buarque de. Dicionário da língua
portuguesa. 6ª ed., Curitiba, 2004.
• ILARI, Rodolfo. A lingüística e o ensino da língua portuguesa.
4ª ed. São Paulo: M. Fontes, 1992.
• INFANTE, Ulisses. Do texto ao texto - curso prático de
leitura e redação. São Paulo: Scipione, 1991.
• KLEIMAN, Ângela. Oficina de leitura: teoria e prática.
São Paulo: Pontes, 1996.
• KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. São Paulo:
Contexto, 1989.
• ______. Argumentação e linguagem. São Paulo: Cortez,
1984.
• LIMA, Carlos Henrique da Rocha. NETO, Raimundo Barbadinho.
Manual de redação. São Paulo: Scipione, 1991.
• MATTOSO, Câmera Jr. Dicionário de lingüística e gramática.
21º ed., Ed. Vozes: Petrópolis, 2000.
• NEVES, Maria H. de Moura. Gramática de usos do português.
São Paulo: UNESP. 2000.
• POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na
escola. Campinas-SP: Mercado de Letras, 1996.
• SOUZA, Luiz Marques de. CARVALHO, Sérgio Waldeck.
Compreensão e produção de textos. 3ª ed. Petrópolis:
Vozes, 1995.
• TERRA, Ernani. NICOLA, José de. Português para o ensino
médio. Série parâmetros (volume único), 2001.
• ______. Práticas de linguagem - leitura e produção de
textos. Volume único para o ensino médio. São Paulo: Scipione,
2000.
• TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e interação: uma
proposta para o ensino de gramática no 1º e 2º graus.
São Paulo: Contexto, 1996.
• VALENTE, André. A linguagem nossa de cada dia. Petrópolis:
Vozes, 1997.


A linguagem verbal e não verbal

A linguagem verbal e não verbal


Aprenda técnicas para usar de forma eficaz a linguagem verbal e não verbal na sedução

Linguagem verbal e não verbal no fórum sedução e comportamento

Sempre que nos comunicamos com alguém utilizamos dois tipos de linguagem: verbal e não verbal. A linguagem verbal compõe-se de palavras e frases. A linguagem não verbal é constituída pelos outros elementos envolvidos na comunicação, a saber: gestos, tom de voz, postura corporal, etc.

Que ninguém duvide do poder da linguagem não verbal. Se uma pessoa lhe diz que está muito feliz mas sua voz é baixa, seus ombros estão caídos, o rosto inexpressivo, em qual mensagem você acredita? Na que ouviu ou na que viu? À esta discrepância entre a linguagem verbal e não verbal damos o nome de incongruência. Portanto, uma pessoa incongruente em determinado aspecto diz uma coisa e expressa outra diferente através de seus gestos, postura, voz, etc.

A linguagem não verbal provém do inconsciente de quem se comunica. Esta é a razão pela qual é tão difícil controlá-la conscientemente (por exemplo, um candidato a um emprego tem dificuldades para disfarçar suas mãos trêmulas em virtude da ansiedade na hora da entrevista). E será processada pelo inconsciente de quem recebe esta comunicação. Deste fato decorrem algumas observações interessantes.

Somente os bons atores são capazes de convencer outras pessoas com relação a uma mensagem da qual discordem inconscientemente. Isto porque esboçam sinais mínimos de incongruência. Ou seja, são treinados para controlar as manifestações do inconsciente (os sinais que poderiam denunciá-los, tais como a voz, que precisa ser forte ao interpretar um personagem agressivo e corajoso, mesmo que no fundo o ator esteja morrendo de medo da platéia).

Outra observação diz respeito à interpretação que fazemos desta linguagem não verbal e inconsciente. Nós às vezes não sabemos explicar por que não acreditamos no que uma pessoa disse. Simplesmente sentimos que algo está errado. Alguns chamarão a isto de intuição. Na verdade, nosso inconsciente observou os sinais do inconsciente da outra pessoa e os codificou. Ele registrou, por exemplo, os sinais que a pessoa emitiu a cada vez que expressou alegria. Imagine que esta pessoa juntava as mãos e respirava fundo sempre que se dizia alegre. Se um dia ela apenas sorri e não repete aqueles sinais, então concluímos que em uma das duas situações ela não estava se sentindo alegre.

Num outro exemplo, temos aqueles nossos amigos que nos conhecem tão bem a ponto de ser quase impossível mentir para eles. Isto porque eles já têm codificados no inconsciente todos os nossos sinais. Eles conhecem, por terem participado de momentos importantes de nossas vidas, a expressão que temos quando estamos cansados, preocupados, alegres, etc.

Imagine agora a seguinte situação: Uma mãe diz a seu filho que o ama, mas com uma voz ríspida e expressão agressiva. Obviamente, o inconsciente da criança registrará a incongruência e ela não se sentirá amada. Todavia, a fim de se proteger da dor que isto causa, ela poderá não dar ouvidos à mensagem inconsciente, procurará ignorá-la e assim se convencer de que a mãe a ama. Com o tempo e com a repetição, ela poderá aprender a desconsiderar sempre a mensagem de seu inconsciente.

O ideal seria que toda criança fosse educada de forma a confiar no que seus sentidos são capazes de perceber: confiar no que seus olhos vêem, confiar que o remédio realmente tem um gosto amargo e não é saboroso e doce como lhe afirmaram. Neste sentido, seria igualmente importante que aprendesse a confiar em sua intuição, aqui entendida como a capacidade de perceber a comunicação inconsciente que recebe de outras pessoas.

Em geral uma pessoa que expressa uma incongruência está dividida internamente. Imagine um político explicando sua plataforma política a seus eleitores de uma forma que não os convence. É como se uma parte dele confiasse no plano e estivesse convencida de seus benefícios, mas outra parte sua tivesse dúvidas a respeito de sua eficácia. Por este motivo, a comunicação será vacilante, insegura ou artificial (exceção feita aos bons atores e àqueles que convencem a si próprios).

Com relação às mensagens verbais e não verbais, ou conscientes e inconscientes, vale ressaltar que para a PNL ambas são reais e igualmente importantes. Porque cada uma delas é a expressão de uma parte da pessoa. Se alguém lhe diz que gosta de você e a nível não verbal expressa o contrário, é possível que esteja dividido a seu respeito. É como se um lado desta pessoa tivesse ressalvas em relação a você e outro lado realmente gostasse (ou quisesse gostar) de sua companhia.

Há alguns contextos onde a incongruência pode ser útil. Por exemplo, uma mãe não desejará que seu filho, que acabou de se ferir com certa gravidade, perceba que ela está apavorada. Ao contrário, neste momento a criança precisa de alguém que possa lhe dar apoio e segurança. Nesta situação, como em muitas outras, é melhor ser incongruente do que causar danos ainda maiores.

Existem várias maneiras de se lidar com as incongruências. A menos eficaz é comentar a incongruência observada, pois isto costuma colocar a outra pessoa na defensiva. Imagine o que acontece se alguém comenta que você parecia não estar falando o que sentia quando disse algo. É possível que você passe a tentar convencer esta pessoa, e para isto você defenderá o que disse. Comentários dão bons resultados quando existe um relacionamento muito próximo entre duas pessoas, quando elas têm liberdade para isto.

PORTUGUÊS Linguagem, código e suas tecnologias

Alinguagem é considerada aqui como a capacidade humana de articular
significados coletivos em sistemas arbitrários de representação,
que são compartilhados e que variam de acordo com as necessidades
e experiências da vida em sociedade. A principal razão de qualquer
ato de linguagem é a produção de sentido.
Podemos, assim, falar em linguagens que se inter-relacionam
nas práticas sociais e na história, fazendo com que a circulação de
sentidos produza formas sensoriais e cognitivas diferenciadas. Isso
envolve a apropriação demonstrada pelo uso e pela compreensão de sistemas simbólicos sustentados
sobre diferentes suportes e de seus instrumentos como instrumentos de organização
cognitiva da realidade e de sua comunicação. Envolve ainda o reconhecimento de que as
linguagens verbais, icônicas, corporais, sonoras e formais, dentre outras, se estruturam de
forma semelhante sobre um conjunto de elementos (léxico) e de relações (regras) que são
significativas: a prioridade para a Língua Portuguesa, como língua materna geradora de significação
e integradora da organização do mundo e da própria interioridade; o domínio de
língua(s) estrangeira(s) como forma de ampliação de possibilidades de acesso a outras pessoas
e a outras culturas e informações; o uso da informática como meio de informação, comunicação
e resolução de problemas, a ser utilizada no conjunto das atividades profissionais, lúdicas,
de aprendizagem e de gestão pessoal; as Artes, incluindo-se a literatura, como expressão
criadora e geradora de significação de uma linguagem e do uso que se faz dos seus elementos
e de suas regras em outras linguagens; as atividades físicas e desportivas como domínio do
corpo e como forma de expressão e comunicação.
Importa ressaltar o entendimento de que as linguagens e os códigos são dinâmicos e
situados no espaço e no tempo, com as implicações de caráter histórico, sociológico e antropológico
que isso representa.
É relevante também considerar as relações com as práticas sociais e produtivas e a
inserção do aluno como cidadão em um mundo letrado e simbólico. A produção contemporânea
é essencialmente simbólica e o convívio social requer o domínio das linguagens como
instrumentos de comunicação e negociação de sentidos.
No mundo contemporâneo, marcado por um apelo informativo imediato, a reflexão
sobre a linguagem e seus sistemas, que se mostram articulados por múltiplos códigos e sobre
os processos e procedimentos comunicativos, é, mais do que uma necessidade, uma garantia
de participação ativa na vida social, a cidadania desejada.
(Texto extraído dos PCNs)


A linguagem verbal e não verbal


Aprenda técnicas para usar de forma eficaz a linguagem verbal e não verbal na sedução

Linguagem verbal e não verbal no fórum sedução e comportamento

Sempre que nos comunicamos com alguém utilizamos dois tipos de linguagem: verbal e não verbal. A linguagem verbal compõe-se de palavras e frases. A linguagem não verbal é constituída pelos outros elementos envolvidos na comunicação, a saber: gestos, tom de voz, postura corporal, etc.

Que ninguém duvide do poder da linguagem não verbal. Se uma pessoa lhe diz que está muito feliz mas sua voz é baixa, seus ombros estão caídos, o rosto inexpressivo, em qual mensagem você acredita? Na que ouviu ou na que viu? À esta discrepância entre a linguagem verbal e não verbal damos o nome de incongruência. Portanto, uma pessoa incongruente em determinado aspecto diz uma coisa e expressa outra diferente através de seus gestos, postura, voz, etc.

A linguagem não verbal provém do inconsciente de quem se comunica. Esta é a razão pela qual é tão difícil controlá-la conscientemente (por exemplo, um candidato a um emprego tem dificuldades para disfarçar suas mãos trêmulas em virtude da ansiedade na hora da entrevista). E será processada pelo inconsciente de quem recebe esta comunicação. Deste fato decorrem algumas observações interessantes.

Somente os bons atores são capazes de convencer outras pessoas com relação a uma mensagem da qual discordem inconscientemente. Isto porque esboçam sinais mínimos de incongruência. Ou seja, são treinados para controlar as manifestações do inconsciente (os sinais que poderiam denunciá-los, tais como a voz, que precisa ser forte ao interpretar um personagem agressivo e corajoso, mesmo que no fundo o ator esteja morrendo de medo da platéia).

Outra observação diz respeito à interpretação que fazemos desta linguagem não verbal e inconsciente. Nós às vezes não sabemos explicar por que não acreditamos no que uma pessoa disse. Simplesmente sentimos que algo está errado. Alguns chamarão a isto de intuição. Na verdade, nosso inconsciente observou os sinais do inconsciente da outra pessoa e os codificou. Ele registrou, por exemplo, os sinais que a pessoa emitiu a cada vez que expressou alegria. Imagine que esta pessoa juntava as mãos e respirava fundo sempre que se dizia alegre. Se um dia ela apenas sorri e não repete aqueles sinais, então concluímos que em uma das duas situações ela não estava se sentindo alegre.

Num outro exemplo, temos aqueles nossos amigos que nos conhecem tão bem a ponto de ser quase impossível mentir para eles. Isto porque eles já têm codificados no inconsciente todos os nossos sinais. Eles conhecem, por terem participado de momentos importantes de nossas vidas, a expressão que temos quando estamos cansados, preocupados, alegres, etc.

Imagine agora a seguinte situação: Uma mãe diz a seu filho que o ama, mas com uma voz ríspida e expressão agressiva. Obviamente, o inconsciente da criança registrará a incongruência e ela não se sentirá amada. Todavia, a fim de se proteger da dor que isto causa, ela poderá não dar ouvidos à mensagem inconsciente, procurará ignorá-la e assim se convencer de que a mãe a ama. Com o tempo e com a repetição, ela poderá aprender a desconsiderar sempre a mensagem de seu inconsciente.

O ideal seria que toda criança fosse educada de forma a confiar no que seus sentidos são capazes de perceber: confiar no que seus olhos vêem, confiar que o remédio realmente tem um gosto amargo e não é saboroso e doce como lhe afirmaram. Neste sentido, seria igualmente importante que aprendesse a confiar em sua intuição, aqui entendida como a capacidade de perceber a comunicação inconsciente que recebe de outras pessoas.

Em geral uma pessoa que expressa uma incongruência está dividida internamente. Imagine um político explicando sua plataforma política a seus eleitores de uma forma que não os convence. É como se uma parte dele confiasse no plano e estivesse convencida de seus benefícios, mas outra parte sua tivesse dúvidas a respeito de sua eficácia. Por este motivo, a comunicação será vacilante, insegura ou artificial (exceção feita aos bons atores e àqueles que convencem a si próprios).

Com relação às mensagens verbais e não verbais, ou conscientes e inconscientes, vale ressaltar que para a PNL ambas são reais e igualmente importantes. Porque cada uma delas é a expressão de uma parte da pessoa. Se alguém lhe diz que gosta de você e a nível não verbal expressa o contrário, é possível que esteja dividido a seu respeito. É como se um lado desta pessoa tivesse ressalvas em relação a você e outro lado realmente gostasse (ou quisesse gostar) de sua companhia.

Há alguns contextos onde a incongruência pode ser útil. Por exemplo, uma mãe não desejará que seu filho, que acabou de se ferir com certa gravidade, perceba que ela está apavorada. Ao contrário, neste momento a criança precisa de alguém que possa lhe dar apoio e segurança. Nesta situação, como em muitas outras, é melhor ser incongruente do que causar danos ainda maiores.

Existem várias maneiras de se lidar com as incongruências. A menos eficaz é comentar a incongruência observada, pois isto costuma colocar a outra pessoa na defensiva. Imagine o que acontece se alguém comenta que você parecia não estar falando o que sentia quando disse algo. É possível que você passe a tentar convencer esta pessoa, e para isto você defenderá o que disse. Comentários dão bons resultados quando existe um relacionamento muito próximo entre duas pessoas, quando elas têm liberdade para isto.